O jogo da amarelinha- Julio Cortázar

janeiro 16, 2020



Por Neto Arman

Um marco na literatura sul-americana, O jogo da amarelinha, do argentino Julio Cortázar, publicado originalmente em mil novecentos e sessenta e três sob o título Rayuela, ganhou nova edição brasileira pela Companhia das Letras com tradução de Eric Nepomuceno e que também traz ensaios de Haroldo de Campos, Mario Vargas Llosa, Julio Ortega e parte das cartas que Cortázar trocou com leitores, críticos e amigos sobre a escrita e recepção da obra. 

Experimental, o romance – ou antirromance – pode ser lido de duas maneiras. A primeira delas, de forma linear, do capítulo um ao cinquenta e seis e assim, dispensando a leitura dos capítulos prescindíveis. A segunda, desafiando o leitor a ser um agente na construção da narrativa. Esta outra opção de experiência – ou até mesmo, outro livro – faz uso dos já mencionados capítulos prescindíveis e é lido aos saltos, iniciando no capítulo setenta e três e tendo a sua ordenação indicada ao final de cada capítulo, e com isso, dando vida ao jogo proposto pelo autor. 

No que tange a trama, O jogo da amarelinha tem como personagem central Horácio Oliveira, um argentino de meia-idade, que na primeira parte do romance, Do lado de lá, vive auto-exilado em Paris. Em solo francês, Oliveira percorre as ruas parisienses em busca de respostas aos seus dilemas existenciais. Em meio ao álcool, cigarros e discos de jazz, tem encontros recorrentes com alguns amigos – que juntos formam o Clube da Serpente – a fim de encontrar algo que nunca se faz presente, mas parece transbordar em suas conversas e embates que giram em torno e em prol do egóico prazer intelectual. Entretanto, em meio a esse universo presunçoso, há a Maga, uruguaia também exilada em Paris de forma voluntária, que destoa de todo o grupo por ser uma mulher mais intuitiva e simples em relação ao quotidiano e com quem Oliveira mantém um relacionamento conflituoso.

Prosaica, Maga não tem as mesmas preocupações que Oliveira e o restante do Clube. Diferente deles, a vida para ela basta. Enquanto todos os outros se valem da metafísica, da alta literatura, da filosofia para preencher os vãos que lhes são existentes, Maga se contenta com os romances mal escritos, em observar moradores de rua, a andar sem rumo por aí. Não à toa, logo no início de O jogo da amarelinha, Oliveira percebe que Maga não tinha certeza do porquê ter ido para Paris, “que com uma ligeira confusão em matéria de passagens, agências de viagem e vistos, ela também poderia ter rumado para Singapura ou para a Cidade do Cabo; a única coisa importante era ter saído de Montevidéu, e ter encarado aquilo que ela chamava modestamente de ‘a vida’”. E justamente por conta desse buraco entre eles que o afastamento acontece. Oliveira, do alto de sua arrogância, prefere a ruptura ante o medo que sente do que esse relacionamento pode trazer. Fato que se concretiza com o sumiço de Maga após ela ter que lidar com uma grande perda e a dor que dela surgiu. Apesar disso, parte do romance é marcado, entre outras coisas, pela ausência de Maga na vida de Oliveira, que passa a sonhar com a ex-amante e a vê-la em outros rostos. 

A segunda parte do romance, Do lado de cá, se passa em Buenos Aires. Ao voltar para a terra natal, Oliveira é recebido por seu velho amigo Traveler e sua companheira, Talita, para quem, num primeiro momento, dedica quase nenhuma atenção, mas com quem após algum tempo acaba criando vínculo.

Diferente da primeira metade da narrativa, quando a trama passa a se ambientar na Argentina, o clima pedante presente na rotina de seus personagens dá lugar a um outro ritmo na condução do romance, mais orgânico e aventuresco. A forte amizade que existe entre Oliveira e Traveler é daquelas que dão vida a uma cumplicidade que ultrapassa limites. A todo tempo se provocando, se admirando e empurrando um ao outro a situações que somente uma relação de extremos, como a dos dois, pode propiciar. Inclusive, Talita acaba se tornando alvo da tensão que exala da intimidade desses dois comparsas. Ela, sem que pudesse imaginar, se pega no meio do fogo cruzado que há entre Traveler e Horácio Oliveira. Ela está ali, no meio da ponte que liga os dois; no centro do jogo que ambos vivem a jogar. 

Cortázar compôs com o seu antirromance uma obra aberta cuja a participação do leitor se faz necessária para a sua consumação plena. Ao aceitar o desafio de seguir o tabuleiro de leitura, o leitor é apresentado a uma terceira parte do livro, De outros lados, os capítulos prescindíveis, nos quais poemas, ensaios sobre a escrita, artigos e trechos da obra de Morelli – personagem que aparece em Do lado de lá –, além de outras coisas, que lidos de forma intercalada aos capítulos das duas primeiras partes, expandem a experiência e nos apresenta ao caráter labiríntico e circular de O jogo da amarelinha. Com sua linguagem e estrutura inventivas, Cortázar por vezes confronta o seu leitor, como se quisesse comprar uma briga. No capítulo trinta e quatro, por exemplo, ele nos força a lê-lo duas vezes, cada uma saltando uma linha, para que seja possível a compreensão do mesmo. Outra coisa recorrente são os trechos em francês e inglês, sem tradução alguma, o que pode fazer com que muitos de seus leitores fiquem a ver navios.

O jogo da amarelinha é uma história sobre amor, mas também é uma história sobre sanidade. Cortázar, com sua prosa fragmentada, nos mostra que a vida pode ser essa eterna procura pelos dois. Em analogia ao seu título, um constante tentar sair do inferno em busca de um céu. Às vezes é possível avançar no jogo, mas o mais comum é errar o passo. E assim como a estrutura do romance, viver não é algo linear. Ora caminhamos em frente, ora para trás. E como todo percurso, passível de acidentes que podem mudar tudo. Não sabemos o que vamos encontrar ao dobrar a esquina.

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