Poemas de Michel Reis

novembro 16, 2019


PAREM DE NOS MATAR

Quantos corpos mais?
Milhões de assassinos policiais
Atiram primeiro, perguntam depois
Mais uma vida ceifada, mais uma vida se foi
111 tiros, prêmio por conseguir o primeiro emprego
Medo, sangue, desespero
Todos os dias minha mãe reza pra eu não ser mais uma vítima
Um corpo no chão com provas destruídas pela perícia
"Por que o senhor atirou em mim?"
como último suspiro
Muitos sonhos interrompidos antes do vale do silício
É morticínio, genocídio
São muitos Ítalos
Onde querem armas na mão
De policiais assassinos
Viatura nova para arrastar mais uma Claudia
Forjar disparo e plantar outra arma
Combater corrupção recebendo arrego semanal
Passando informação que resulta em assalto na Central
Enriquecem a Taurus numa lógica infinita
Maria Eduarda mais uma vítima da guerra capitalista
Tinha o sonho de estudar e melhorar a favela
Mas quantos mais vão morrer em nome dela?
Quantos de vocês lembram da Evelin, da Emely ou do Jeremias
Manoela do Limoeiro e da Nicolly da Rocinha?
3 pessoas morrem extraoficialmente por dia
Não se apontam culpados
Pois eles trabalham para delegacias
Ostentam distintivos e medalhas por matar inocentes
Enquanto são aplaudidos por aqueles que defendem
Que um jovem preto como eu
Não tenha futuro, seja morto em um bar
Que não tenha oportunidade nos estudos
Aqueles que se apropriam do nosso suor
Pra mandar o filho passar férias em Bachelor
E agora Freixo será que acredita em policial antifascista?
Vocês não se importam com o Anderson nem com a Marielle, racistas!
Só estão preocupados porque atingiram alguém do partido
Logo tudo será esquecido
Então não se preocupem, pois o alvo nunca será vocês
Pedem apuração, investigação, falam de medo
Saibam que na periferia nós sabemos o que é isso desde cedo
Continuarei a gritar enquanto não vierem me calar

PAREM DE NOS MATAR!


Eu não sou seu negro

Eu sou negro sim!
Eu sou preto!
Sou maloqueiro, sou respeito
Filho de Zumbi e neto de Dona Dinda
Que não esqueceu Malê, nem Altamira
Minha filha se chamará Dandara
Para homenagear uma rainha
Meu filho se chamará Amiri Baraka
E reinará ao lado de uma Pretinha
Eu resisto como Rosa Parks
Eu estudo como Ida Wells
Eu prefiro Bel Hooks à Marx
E sou uma homenagem ao Michael
Mesmo me chamando Michel
Eu sou preto chave, sou vida
Quero ser eternizado como o Madiba
Quero lutar como Marcus Garvey
Ter a paz de Bob Marley
E se precisar morrer como Nkrumah, morrerei
Então me mate!
Quero libertar como o Sankara
Ser herói como Lumumba
Minha avó não era escrava
Ela é alguém abençoada por Dandalunda
Tenho pai preto, mãe preta
Minha parte branca é um comprimido de dorflex
E pra que eu nunca esqueça
Na minha parede tem uma foto do Malcolm X
Quero ganhar um Nobel como o Soyinka
Tocar como o Ray Charles
Conhecer Uganda, Angola e o Mali
Vou pintar uma bandeira de Burkina Faso
E lembrar quem venceu no Haiti
Ensinar quem foi Milton Santos, Rebouças e Machado de Assis
Agradecer Carolina Maria de Jesus
Ela sim é hor concours
Viva ao Mano Brown, Sabotage, Carlos Marighella

A todos os poetas afro uruguaios
E a quem venceu saindo da favela!


Preto Negro

Eu sou o preto negro
Tipo A
Difícil de lidar
Aquele articulado
Que não é passado pra trás
Não é o macaco
Não é o neguinho
Que não luta contra o estado
Mas sei também que por isso sou um alvo
E se algum dia eu aparecer
Na TV por ser alvejado
Saibam que vai ser forjado
Como tantos outros que aparecem por aí

Eu sou o preto negro
Aquele que não gostam de ter por perto
"Esse nego se acha esperto"
"Precisa voltar pro seu lugar"
Por que será que incomoda a minha presença?
Talvez seja a descrença
Que você tem em ser melhor

Eu sou o preto negro
Eu não sou teu amigo
Mas você quer foder comigo
Porque meu pau é grande
Mas depois vai ficar distante
Pois não sou parte do que tu vive

Eu sou preto negro
Você quer me usar
Mas não posso frequentar
O mesmo lugar que você
Tenho que morar tão longe
Não posso ter meu carro
Pois o homem fardado
Vai dizer que fui baleado
Por resistir

Eu sou preto negro
E não vou desistir
Eu vou viver
Eu só quero viver
Não tente me impedir de SER


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Sobre Michel Reis

Paulistano de 27 anos (contrariando as estatísticas), estudante de Letras da Universidade Federal de São Paulo, poeta nas horas vagas e sonhador em tempo integral).

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