O leitor contemporâneo e os textos “velhos”- Gabriel Furine Contatori (UNIFESP)

julho 04, 2019


Em Seis passeios pelos bosques da ficção, Umberto Eco faz uma distinção entre o leitor modelo e o leitor empírico. Segundo ele, o leitor modelo é aquele projetado pelo texto (ECO, 2001, p. 15), ao passo que o leitor empírico é você, eu, todos nós, quando lemos um texto. Os leitores empíricos podem ler de várias formas, e não existe lei que determine como devem ler, porque em geral utilizam o texto como um receptáculo de suas próprias paixões, as quais podem ser exteriores ao texto ou provocadas pelo próprio texto (idem, p. 14).

Esse leitor empírico leva para o texto, no ato de leitura, suas experiências, vivências, concepções de mundo etc. O leitor contemporâneo (e, aqui, pensemos no brasileiro), por exemplo, formado numa sociedade democrática; inserido nas constantes lutas pela igualdade de direitos; pelo fim do racismo, da lgbtfobia, do feminicídio, entre outros aspectos, tende a projetar essas concepções naquilo que lê.

Neste ensejo, esses elementos formam o ethos e preenchem o thesaurus mental (para utilizar um termo da Linguística) do leitor da contemporaneidade. Fato é, entretanto, que as concepções que o leitor contemporâneo carrega consigo não são e também não foram as únicas que imperaram no mundo.
Essas questões incidem, diretamente, no ato de leitura. A esse respeito é pertinente o comentário de Vicent Jouve no texto “O que é a leitura?”:

A grande particularidade da leitura em comparação com a comunicação oral é seu estatuto de comunicação diferida. O autor e o leitor estão - pelo menos na grande maioria dos casos - afastados um do outro no espaço e no tempo. A relação entre emissor e receptor é, na leitura, totalmente assimétrica (JOUVE, 2002, p. 23).

O afastamento entre autor e leitor, conforme Jouve, se situa tanto espacialmente quanto temporalmente. Logo, nesta relação assimétrica da leitura, o leitor da contemporaneidade, ao se debruçar em textos mais recuados no tempo, encontrará espaços e tempos já passados, que não são os do mundo moderno.

Infelizmente, na maioria das vezes, “o presente”, “o hoje” do leitor é régua para medir o passado. Assim, embora o leitor pudesse se valer dessa relação assimétrica da leitura para conhecer outros mundos, utiliza—a para emitir seu juízo de valor sobre um passado já morto. Desta forma, ao ler textos mais “antigos”, ao invés de tentar-se compreender o espaço e o tempo daqueles textos, é mais fácil tachar logo de cara: “nossa, que texto preconceituoso”; “nossa, que machista esse autor era” etc. etc. etc.

Mais aí fica a questão: preconceituoso e machista para quem, cara-pálida? Para o leitor da contemporaneidade, é claro! É impossível, goste ou não o leitor contemporâneo, que autores dos séculos XVI, XVII e XVIII, por exemplo, discutam sobre democracia, igualdade de direitos, liberdade etc. A sociedade era outra; o tempo era outro; os valores eram outros; as ordens de produção e recepção, enfim, eram outras. Sobre essa questão, convém o comentário de Maria do Socorro Fernandes de Carvalho no texto “O que há de literatura e cultura nos séculos XVI e XVII?”:

Resta assente que o leitor de nossa contemporaneidade, além de não poder abrir mão dos conhecimentos adquiridos pelo homem no decurso dos séculos, não pode e não quer deixar de considerar que os tempos são outros, e que aquelas ordenações de conceitos que alicerçaram determinada poesia não operam mais, em amplo leque, em seu próprio hoje, aqui e agora. Esse leitor, mesmo que o desejasse, não poderia “arrancar seus olhos”. E é igualmente interdito a ele esperar que conceitos, ideias, opiniões, visões de mundo e sensibilidades do século XVII sejam pautados pelas ordenações hodiernas. Só por serem nossos valores, não são ou não foram os únicos (CARVALHO, 2011, p. 275).

Quando não se tacha os autores ou os textos de determinadas épocas com rótulos diversos, opta-se por torná-los “modernos”. É o caso, por exemplo, de sor Juana Inés de la Cruz, monja do século XVII, que é lida, ainda hoje, como “primeira feminista das Américas” (vide a série do Netflix). Sor Juana está mais dentro do tempo dela do que fora dele. Para sanar a curiosidade, leia-se o soneto “Retorica del llanto” junto com a Retórica, de Aristóteles.

É claro que não estamos defendendo o preconceito e outras formas de exclusão e violência contra as minorias. Mas, simplesmente, gostaríamos que ficasse claro que a lupa que se utiliza para ler textos do século XX e XXI, não pode ser a mesma utilizada para ler textos da Antiguidade, da Idade Média, das Belas Letras etc.

Nós não somos, na maioria das vezes, o leitor projetado (ou modelo) pelo autor e pelo texto. Assim sendo, precisamos fazer um esforço para ler as produções de outras épocas, esforço este que consiste em entender que os conceitos que os textos veiculam não são “pautados pelas ordenações hodiernas”, conforme aponta Carvalho (2011). Em outras palavras, o leitor deve ajustar a lente ao objeto, ao texto que tem em suas mãos. Enfim: lentes novas para textos “velhos”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARVALHO, Maria do Socorro Fernandes de. O que há de literatura e cultura nos séculos XVI e XVII?. Letras, Santa Maria, v. 21, n. 43, p. 271-283, 2011.
ECO, Umberto. Entrando no bosque. In: Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
JOUVE, Vicent. “O que é a leitura?”. In: A leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2002. 

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Sobre Gabriel Furine Contatori
Graduando em Licenciatura em Letras (Português e Espanhol) na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Desenvolveu pesquisa de Iniciação Científica intitulada: Arte nuevo de hacer comedias en este tiempo, de Lope de Vega: tradução e comentários, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Atualmente, desenvolve a pesquisa El caballero de Olmedo, de Lope de Vega: estudo poético e retórico, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Tem interesse na área de Letras, com ênfase em estudos poéticos e retóricos; tradição e recepção clássicas no século XVII espanhol; teatro espanhol do século XVII e Lope de Vega. (Fonte: Currículo Lattes).

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