18 poetas brasileiros que a curadoria de literatura do Instituto Moreira Salles deveria conhecer

abril 28, 2019


Foi no dia 18 de abril que vi um tuíte do Instituto Moreira Salles a respeito de um evento que ocorreria na casa carioca da instituição, o IMS Rio, que fica na Gávea, bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro. O evento em questão se chamava Oficina irritada (poetas falam) e reuniria “18 importantes nomes da poesia contemporânea brasileira de diferentes gerações e percursos diversos” e que “seus modos singulares de ver e escrever estariam em diálogo por 3 dias em 6 encontros”. De fato estavam escalados nomes muito bons e que admiro da poesia brasileira para a oficina. Gente que gosto e por quem tenho muito carinho, inclusive. Porém assim que deitei meus olhos sobre a arte do evento, questionei: só existem poetas brancos no Brasil?
É simplesmente inaceitável que em pleno dois mil e dezenove esse tipo de coisa ainda ocorra em nosso país, cuja maior parte da sua população é justamente negra. Esse apagamento é de uma violência gritante e jamais esperado de uma instituição que se vende como progressista. Ainda menos esperado de uma instituição que se vende como progressista no Brasil de Bolsonaro, onde precisamos, mais do que nunca, dar voz a todos para que possamos resistir a estes tempos estranhos. Foi muito dito por aí que ninguém iria soltar a mão de ninguém, mas a cada dia que passa a gente tem a impressão de que algumas mãos não foram nem seguradas e esse evento do IMS Rio só veio para corroborar essa impressão.
Como acontece tão costumeiramente nos eventos culturais e artísticos do nosso país, a curadoria da Oficina irritada, composta por Eucanaã Ferraz e Bruno Consetino, parece não (querer) enxergar além do próprio mundinho – ou panela, se preferirem. E ser um dos maiores nomes da poesia brasileira atual, além de professor de uma das mais importantes universidades do país, não impediu que Eucanaã Ferraz fizesse declarações desastrosas, elitistas e racistas acerca de todo barulho ocasionado em protesto ao evento. A sua arrogância expõe o que não é novidade alguma para ninguém: o racismo continua sendo um dos problemas estruturais que mais afligem a nossa sociedade. E não adianta se escorar na alegação de que convidaram Ricardo Aleixo, outro de nossos maiores poetas, para compor o corpo do evento e ele não pôde – e como deixou bem claro, se pudesse, também não iria. Continuaria sendo um contraste assustador: dezessete poetas brancos, apenas um poeta negro. E eu não quero com isso dizer que somente a curadoria da oficina tem culpa nessa história. O IMS Rio, que aprovou o evento, tem; os poetas participantes também podem ter. Entretanto, no caso destes últimos, o posicionamento e atitudes adotados por cada um a partir do momento que descobriram quem eram seus companheiros de mesas é o que dita o nível de protagonismo deles neste episódio. E cabe a cada um de nós, individualmente, julgar se os enxergamos culpados ou inocentes.  
Não foi surpresa para ninguém – além dos curadores – que leitores, poetas, escritores etc se revoltaram diante da falta de diversidade do evento. Por mais que todos tenham percursos próprios e modos de ver e escrever singulares, todos os poetas da Oficina irritada falam a partir do mesmo ponto de vista, o da branquitude, o que por si só já os colocam no mesmo barco. Impossível, com isso, não lembrar da Chimananda Ngozi Adichie e seu famoso discurso sobre os perigos de uma história única. Precisamos conhecer pessoas que tenham percursos, modos de ver e escrever que sejam diferentes destes, para que eventos do tipo sejam diversos de verdade. E foi a partir dessa necessidade que a Maria convidou a mim e a Mayra para compormos uma lista com dezoito poetas que poderiam estar no evento do Instituto Moreira Salles. E como toda lista, a nossa não é perfeita. Principalmente por termos montado esta lista tão rápido.
Temos consciência que falta muita gente de fora do eixo Rio-São Paulo, por exemplo – e prometemos nos redimir em relação a isso em breve. Assim como só escolhemos poetas negros, por esse ser um dos motes do Impressões de Maria. Sabemos que há no Brasil poetas indígenas e amarelos, mas, por questão de recorte, os deixamos de fora. Outras coisas que levamos em consideração para montarmos esta breve lista foram: 1) só listaríamos poetas vivos; 2) só listaríamos poetas com pelo menos um livro de poemas publicado; 3) não incluiríamos o poeta Ricardo Aleixo por ele ter sido o único lembrado pelo evento e queríamos mostrar que não existe apenas um poeta negro no Brasil. Portanto, também deixamos de fora muita gente boa, como a Rejane Barcelos, a Midria, a Mc da Alfarra, o Marco Oliveira e tantos outros, que não têm livros publicados e são figuras conhecidas dos slams Brasil afora. Também deixamos de fora tantos rappers que poderiam figurar uma lista de grandes poetas brasileiros como Mano Brown, Emicida, Negra Li, Amiri, Zudizilla, Djonga, Yas Werneck, Tássia Reis… Enfim. Vou parar por aqui se não escrevo um texto só com desculpas por não termos feito uma lista mais completa e diversa. Porém ficamos felizes em poder mostrar a todos, principalmente à curadoria de literatura do IMS Rio, que não é tão difícil assim montar um evento plural e de qualidade.

Texto por Neto Arman.
Lista por Maria Ferreira, Mayra Guanaes e Neto Arman.



Gabriel Sanpêra
Gabriel Sanpêra é um jovem poeta de Barra Mansa, Rio de Janeiro, mas que hoje vive em São Paulo. Finalista do Prêmio Malê de Literatura de 2016, seus poemas versam sobre o cotidiano e a diversidade do corpo negro, sempre em movimento. É autor de Fora da Cafua, livro de poemas publicado pela editora Urutau em 2018 e teve poemas selecionados para a Antologia Internacional Best “New” African Poets (African Books Collective, 2017), no Zimbábue.

Edimilson de Almeida Pereira
Edimilson de Almeida Pereira é um dos maiores nomes da poesia brasileira. De Juiz de Fora, Minas Gerais, tem sua obra poética reunida em quatro livros editados pela editora Mazza. São eles: Zeosório blues (2002), Lugares ares (2003), Casa da palavra (2003) e As coisas arcas (2003). Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura de 2018 com o livro Qvasi. Segundo Caderno, publicado pela Editora 34. Além de poeta, é ensaísta e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Carlos Orfeu
Carlos Orfeu é um poeta de Queimados, Rio de Janeiro. Figura carimbada das noites e eventos culturais do Rio de Janeiro, Orfeu é sempre referido como um devoto das artes. Além de publicar seus poemas em blogs pessoais, revistas e os mais diversos meios literários. É autor de Invisíveis cotidianos, publicado pela LiteraCidade, e Nervura, pela Editora Patuá.

Elisa Lucinda
Elisa Lucinda, além de poeta, é também prosadora, atriz, cantora e jornalista. De Cariacica, município do Espírito Santo, Lucinda se tornou bastante conhecida do público brasileiro por conta das suas participações em novelas da maior emissora de televisão do país. É autora dos livros A lua que menstrua, Eu te amo e suas estreias, A poesia do encontro, escrito junto com Rubem Alves, e Vozes guardadas. 

Miriam Alves
Nascida em São Paulo, Miriam Alves é, além de poeta, romancista, professora e assistente social e sua obra é bastante estudada por pesquisadores brasileiros. Nos anos 80 passou a integrar o coletivo Quilombhoje, responsável pela celebrada publicação dos Cadernos Negros, nos quais também teve seus escritos incluídos. É autora dos livros de poemas Momentos de busca e Estrelas nos dedos.
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Cristiane Sobral
Cristiane Sobral hoje em dia mora em Brasília, mas ele é da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Além de poeta, ela também é atriz, dramaturga, professora e como gosta de destacar, mãe. A autora também teve seus textos publicados nos Cadernos Negros. Seus livros de poemas são: Não vou mais lavar os pratos (Editora Thesaurus), Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz (Editora Texeira) e Terra negra (Editora Malê).
Akins Kintê
Além de poeta, é cineasta. É anfitrião do Sarau no Kintal e autor dos livros Punga, em co-autoria com Elizandra Souza e InCorPoros, com Nina Silva, além de inúmeras coletâneas literárias. No seu currículo estão ainda o curta Vaguei nos livros e me sujei com a m... toda, o documentário Várzea, a bola rolada na beira do coração e Zeca, o Poeta da Casa Verde.
Site Facebook.

Allan da Rosa
Allan da Rosa nasceu em 1976 em São Paulo. É escritor, educador e editor. Dentre suas obras de poesia publicados pela Edições Toró figuram: Vão, Morada, em coautoria com Guma, A Calimba e a Flauta: Versos Úmidos e Tesos em coautoria com Priscila Preta. Sua publicação mais recente é o livro de contos Reza de mãe (2016), pela Editora Nós.

Luz Ribeiro
Luz Ribeiro nasceu em São Paulo. É um dos principais nomes do Slam das Minhas de SP, também participa dos coletivos Poetas Ambulantes e Legítima Defesa. Está sempre presente em saraus pela cidade. Autora do livro independente Eterno Contínuo (2013) e do livro duplo Espanca/Estanca.(2017).
Facebook | Instagram.

Lubi Prates
Poeta, editora e tradutora. Publicou: coração na boca (2012), triz (2016) e um corpo negro (2018). É sócia-fundadora e editora da Nosotros Editorial, e é editora da revista literária Parênteses.

Mel Duarte
Além de poeta, é slammer e produtora cultural. Publicou os livros Fragmentos Dispersos (2013), Negra Nua Crua (2016, editora Ijumaa), que foi traduzido e também publicado em espanhol e “Negra Desnuda Cruda” (2018, ediciones ambulantes, Madrid, ES).
É integrante da coletiva Slam das Minas – SP, batalha de poesias voltada ao gênero feminino. 
Site da autora.

Ronald Augusto
Ronald Augusto nasceu em 1961 no Estado do Rio Grande do Sul. É Poeta experimental, crítico, editor e músico. Possui uma vasta lista de publicações, das quais destacamos: Puya (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004). No assoalho duro (2007). Cair de Costas (2012). 

Kinaya Black
Kinaya Black é o pseudônimo de Gisele Sousa, 23 anos, natural de Quixadá, cidade do Estado do Ceará. Cursa Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Versos livres, como nós (2019, Editora Letramento) é sua primeira publicação, na qual reúne setenta poemas que versam sobre experiências da mulher, especialmente da mulher negra.

Jennyfer Nascimento
Nasceu em Pernambuco em 1984. É escritora, ativista, frequentadora de saraus, começou a ecsrever por conta de seu contato com o hip-hop.
À convite de Elizandra Souza participou da antologia Pretextos de Mulheres Negras (2013), que reuniu vinte e duas mulheres poetas. Sua publicação solo se deu com Terra fértil (2014, Editora Mjiba).
Lívia Natália
É uma poeta baiana, nascida em 1979. Doutora em Crítica da Literatura e da Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde também atua como docente.
Em suas produções estão evidenciadas a relação com a religião de matriz africana, o Candomblé. A poeta conta com quatro livros publicados. Água Negra (2010, Caramurê Publicações) é sua primeira publicação decorrente de um prêmio de um Concurso Cultural promovido pelo Banco Central, tendo sido selecionado em primeiro lugar. Correntezas e Outros Estudos Marinhos (2015, Editora Oguns Toques) é sua segunda publicação. Água Negra e Outras Águas é o relançamento de seu primeiro livro, acrescido de dezessete novos poemas (2016, Caramurê Publicações) e Dia Bonito pra Chover (2017) é sua publicação mais recente pela editora Malê.  

Cuti
Cuti é nome artístico de Luiz Silva (1951). Escritor, doutor em Literatura pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi um dos criadores dos Cadernos Negros e integrante do Coletivo Quilombhoje. Sua obra está distribuída entre contos, ensaios, dramaturgia e poesias. Nasceu em Ourinhos-SP e atualmente vive na capital. 
Dentre suas publicações de poesia estão as publicações pela editora Mazza: Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (1987), Sanga (2002), Negroesia (2007), Kizomba de vento e nuvem (2013) e pelo ciclo Contínuo Editorial Negrhúmus líricos (2017).


Jarid Arraes
Nasceu no Ceará, em 1991 e atualmente mora em São Paulo. É uma escritora, cordelista e poeta. Publicou os livros As Lendas de Dandara (2015), Heroínas Negras Brasileiras (2017) (Polén Livros) e Um buraco com meu nome (2018) (selo Ferina), mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel. Curadora do Selo Ferina.

Conceição Evaristo
Nasceu em Minas Gerais (1946), mas atualmente mora no Rio de Janeiro. É doutora em Literatura Comparada pela UFF e autora dos romances Ponciá Vivêncio (2003), Becos da memória (2006) e do livro de contos Insubmissas Lágrimas de Mulheres (2011).
Mais conhecida por suas produções narrativas, Conceição Evaristo também é poeta. Suas primeiras publicações dentro desse gênero se deu nos Cadernos Negros, a partir dos anos 1990, totalizando vinte poemas publicados ao todo nos Cadernos de 1990 a 2011. Em 2008 publicou Poemas de recordação e outros movimentos pela Nandyala e o relançou em 2017 pela Malê.

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