Sempre Bruxa e sua viagem no tempo mal-sucedida

fevereiro 15, 2019

Fonte: Netflix
Sempre Bruxa (Siempre Bruja) é uma série colombiana original da Netflix, que é baseada no livro “Yo, Bruja”, da autora colombiana Isidora Chacon. A série tem como protagonista Carmen Equiluz (Angely Gaviria), uma jovem negra escravizada de 18 anos que vive em Cartagena no século XVII, no ano de 1646.

Carmen é acusada de bruxaria por saber ler e ser apaixonada pelo filho de seus senhores, Cristóbal Aranoa (Lenard Vanderaa). Julgada, é condenada à fogueira. Durante seu julgamento, Cristóbal, inconformado com o destino de sua amada, tenta protestar e leva um tiro. Na prisão, enquanto espera por sua pena e muito triste pela morte de seu amado, ela conhece um bruxo chamado Aldemar (Luis Fernando Royos), que promete fazer com que Cristóbal volte a viver, tendo como condição que Carmen cumpra uma missão para ele, que é viajar para o futuro e fazer uma entrega. Carmem aceita o trato e com isso vai parar na Cartagena do XXI, no ano de 2019. Esse é o enredo principal. De fato, Carmem é uma bruxa com poderes, então em síntese, é uma série com magia e elementos mágicos, mas o que poderia ser algo criativo e bem trabalhado, se mostra cheio de fragilidades.

A começar pelas viagens no tempo. Uma produção que pretenda trabalhar com viagens no tempo tem que tomar cuidado para o fazer de uma forma que convença e não deixe dúvidas de sua possibilidade. Não é o que acontece em Sempre Bruxa, que apresenta falta de lógica e uma trama inconsistente, que só faz pensar em como tudo que acontece não tem o menor sentido dentro da racionalidade.

Outro problema da série é em relação aos atores. Em sua maioria, não demonstram o mínimo de expressividade, não convencem pela atuação, não inspiram comoção alguma.


Ademais dos problemas técnicos, há os que vou chamar de problemas morais. Considerando que evidentemente a relação entre senhor e escravo sempre foi uma relação de poder, é muito problemático que a série seja sobre uma mulher negra escravizada que se apaixona pelo filho branco de seu senhor e que tenha como única motivação na vida viver ao lado dele.

Em um dos episódios finais, a família Aranoa é direcionada por Aldemar a oferecer um banquete, no qual Carmem pede que suas companheiras escravizadas possam sentar-se à mesa com eles. Em determinado momento, todos já altos por conta do álcool, senhores e servos travam diálogos. Há a senhora que presenteia a escrava com um colar por seus 15 anos de servidão, o senhor que esquece suas diferenças e dança com a escrava e o senhorzinho que promete que quando for dono daquela casa libertará a todos. Essas são cenas em que as pessoas estão enfeitiçadas, mas não é uma cena gratuita, ela deixa transparecer as atrocidades da servidão, seja na esperança de reconhecimento dos senhores ou nas promessas vazias de liberdade.

Cristóbal pode parecer ser diferente dos pais, pode “amar” uma de suas escravas, mas enquanto seu discurso for de que só fará algo pela libertação dos escravos quando for dono da casa e continuar aceitando ser servido pelas mulheres que são como sua amada, ele continua sendo um senhorzinho, querendo ou não.

Ao ser protagonizada por uma mulher negra, percebe-se que a série quer vender uma ideia de empoderamento que ela mesmo não desenvolve, ou seja, atrai pela estética, mas não cumpre o que se espera dela, não aprofunda as poucas questões que aborda, acaba sendo algo que só existe por razões comerciais. A decepção é menor se não formos com grandes expectativas.

Para não dizer que a série é de todo ruim, tem como positivo a apresentação de uma Cartagena cheia de cores e beleza e se ignorarmos todas as falhas, é uma série relativamente curta, composta por 10 episódios com cerca de 40 minutos cada, boa para treinar o espanhol.

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