Representação da mulher nigeriana nos romances de Buchi Emecheta

fevereiro 01, 2019


Imagem retirada do site TAG Livros
Buchi Emecheta (1944-2017), escritora nigeriana, foi recentemente traduzida no Brasil depois de ser indicada por Chimamanda Ngozi Adichie, também nigeriana, a um clube de assinatura de livros.

Seu primeiro romance traduzido foi As alegrias da maternidade (1979), seguido de Cidadã de segunda classe (1974). Ambos os livros têm suas tramas desenvolvidas ao redor de duas mulheres nigerianas que veem a necessidade de saírem do seio familiar para irem em busca da construção de suas próprias famílias, nas quais a maternidade é uma obrigação, de forma que, originárias da mesma sociedade, seus problemas são do mesmo tipo: corresponder ao que a sociedade espera delas como mulheres, sem, no entanto, deixarem de ser fiéis aos seus desejos.
320 pgs. Tradução: Heloisa Jahn
Em As alegrias da maternidade, Nnu Ego é a personagem principal. Filha do chefe local da cidade igbo de Ibuza e uma de suas três amantes, é dada em casamento a um homem escolhido por seu pai. No entanto, este primeiro casamento não dá certo porque Nnu Ego não engravida no primeiro ano de relacionamento e não vê outra opção senão voltar para a casa paterna. Recuperada do trauma de ter sido rejeitada, foi dada em casamento novamente, dessa vez a um homem que tinha família em Ibuza, mas vivia trabalhando em Lagos. Desde o princípio a relação entre os dois não é das melhores, o marido não é o que Nnu Ego esperava e o suporta apenas porque tem esperanças de que lhe dê um filho.

A narrativa em terceira pessoa tem início em 1934, quando Lagos ainda era colônia britânica e desenvolve-se durante a Segunda Guerra Mundial, contexto que influencia muito na vida das personagens uma vez que devido ao cenário de guerra a dificuldade para conseguir empregos e manter comida na mesa aumenta. É por conta disso também que Nnaife, o marido, precisa ausentar-se por um longo período de tempo para trabalhar como soldado, enquanto a mulher e os filhos ficam praticamente à mercê da sorte.
256 pgs. Tradução: Heloisa Jahn
Cidadã de segunda classe, romance ambientado nos anos 60, tem Adah como protagonista. Desde criança sua vida foi guiada por um sonho. Na sociedade nigeriana, o nascimento de uma menina não é um acontecimento que merece grande destaque, por isso elas não tem muita atenção dos pais e quando muito, só conseguem estudar durante os anos iniciais. O acesso à educação é negado às meninas porque o que se espera delas é que casem com o marido escolhido pelo pai e o dote sirva para pagar os gastos tidos até então. O dinheiro que era destinado à educação era sempre para os meninos da família. Mas Adah queria estudar e fez de tudo para conseguir isso. Mesmo quando a família quis interromper seus estudos, mudaram de ideia porque uma mulher com instrução valia mais e portanto o dote seria maior. O casamento com Francis foi só um dos artifícios dos quais ela precisou usar para que pudesse realizar seu sonho de dar continuidade aos estudos.

O título faz alusão à condição da mulher nessa sociedade machista e patriarcal: “Okpara não mencionou Titi, ela era só uma menina, um ser humano de segunda classe; não fazia diferença ela respeitar ou não o pai. Ao crescer seria uma mulher comum, não um ser humano completo, como os homens” (p.229, grifos meus); como também à diminuição de prestígio de uma nigeriana que mora na Inglaterra: “em Lagos você pode (…) estar ganhando um milhão de libras por dia, pode ter centenas de empregadas; pode estar vivendo como uma pessoa da elite, mas no dia em que chega à Inglaterra vira cidadã de segunda classe” (p.58, grifos meus).

Quando postos em uma perspectiva de comparação, percebe-se algumas semelhanças nos dois romances. A que mais salta aos olhos é a figura da mulher nigeriana e como ela obedece às regras dessa sociedade, o que a torna serviçal, submissa, tendo como principal finalidade dar filhos ao marido. Os maridos mostram-se acomodados e em um contexto de distância da tribo originária, no caso de Nnaife, Lagos e no caso de Francis, Inglaterra, colocam nas mãos das esposas o sustento da família, criação dos filhos, não preocupam-se em procurar empregos e são até mesmo aversos a eles.
Apesar dos casais estarem distante de seus locais de nascimento, procuram proximidade e amizade com outros nigerianos, de modo que quando há brigas de casal e a mulher toma uma atitude mais ousada, como sair de casa, sempre aparece um homem nigeriano para orientá-la no caminho seria considerado o certo, nesse caso, a figura masculina aparece como salvadora e mediadora de conflitos.

Em ambos os livros a religião cristã está presente, mostrando como a colonização foi efetiva no sentido de colonizar até a religião. Outro elemento comum é a briga que há entre igbos e iorubás.
Nos dois romances a educação é vista como importante, mas somente os garotos têm prioridade para continuar os estudos quando o orçamento da família fica apertado. As meninas são desestimuladas logo cedo a não estudarem.

As duas protogonistas passam por situações difíceis que aos poucos, quando o sentimento de solidão torna-se constante e o arrependimento por terem casado aumenta, faz com que tomem consciência de suas posições na sociedade e tenham uma revelação do quanto os homens e a estrutura na qual estão inseridas são patriarcais e machistas e a partir disso resignem-se ou lutem por mudança.

São muitas as semelhanças, essas são apenas algumas. A meu ver, Cidadã de segunda classe é o romance que mais representa de forma ativa a imagem da mulher. Os dois, com certeza, representam uma imagem fiel da mulher nigeriana, mas só Adah é construída como uma mulher determinada, que mesmo nos momentos que é afastada da realização de seus desejos, não os esquece e na primeira oportunidade volta a trabalhar para realizá-los. Insiste em continuar seus estudos e por conta deles consegue trabalho fixo como bibliotecária, não apenas na Nigéria, mas também na Inglaterra. Por mais que saiba que o dever da mulher é dar filhos ao marido, vai em busca de informações sobre métodos contraceptivos, ainda que seja proibido. Mesmo com tudo agindo contra ela, tem uma atitude de resistência e enfrentamento, enquanto Nnu Ego, por mais batalhadora que seja, mostra-se mais resignada.

*Livros enviados pela editora.

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