Sobre “Ao lado e à margem do que sentes por mim”, de Ana Maria Gonçalves e o alvorecer literário

agosto 23, 2018

Créditos: Neto Arman
Texto de Neto Arman
Quem me conhece sabe que eu tenho um interesse enorme por estreias literárias. Sinto um certo fascínio em descobrir como foi o começo de gente que com o tempo veio a se tornar referência na literatura. Mesmo que eu nunca tenha lido outra coisa dos autores para comparar, gosto de saber como foi o início de suas jornadas. Quando Zadie Smith soltou seus “Dentes brancos” no mundo, fez um barulho enorme, sendo considerada uma das maiores promessas da literatura contemporânea. Mia Couto estreou com um livro de poesia, é verdade, mas sua magnum opus, “Terra Sonâmbula”, não deixa de ser uma estreia, pois foi seu primeiro romance. E recentemente, aqui no Brasil, Geovani Martins colocou seu nome na boca de todos com o ótimo “O sol na cabeça”. Outros autores, no entanto, tiveram estreias modestas e só com o tempo se tornariam quem são.

Isto posto, um debute que eu sempre quis ler foi o de Ana Maria Gonçalves, com seu “Ao lado e à margem do que sentes por mim”. Ana, como se ainda fosse necessário apresentá-la, é autora de “Um defeito de cor”, um dos romances mais celebrados da literatura brasileira nos últimos anos. E digo mais: todo mundo que eu conheço que já leu esse calhamaço costuma cravar: “Um defeito de cor” não é só um livro excelente como é um dos mais importantes – se não for o mais importante! – da literatura brasileira do século XXI. Meu amigo Brayan foi a primeira pessoa a me dizer isso. E ele não está sozinho. Millôr Fernandes concorda. O autor escreveu em seu blog que o livro está entre os dez mais importantes que já leu em nossa língua. E ainda mandou ninguém mais ninguém menos do que Saramago se cuidar. Ou seja, não é pouca coisa.

A questão era a seguinte, achar “Ao lado e à margem do que sentes por mim” por aí se tornou uma das tarefas mais difíceis da vida de qualquer leitor brasileiro. O livro, escrito por Ana Maria quando ela decidiu largar tudo e partir para a Ilha de Itaparica, onde o escreveu, foi publicado de forma independente pela autora lá em 2002, quando a mesma era bem pouco conhecida. Apenas mil cópias foram lançadas e não existe estante virtual que o tenha. Okay, okay, a autora disponibilizou boa parte da obra em seu antigo blog, mas convenhamos, não é mesma coisa. Entretanto, 2018 tem sido um ano muito arteiro, aprontando várias para o meu lado. E numa dessas, em mais uma obra do acaso (que pode não ser tanto acaso assim para muitos), fez com que eu ficasse sabendo por meio da queridíssima Marilia (baita escritora! A acompanhem, não irão se arrepender!) que a biblioteca José de Alencar, que fica lá na Faculdade de Letras da UFRJ, tinha uma dessas poucas cópias. Não perdi tempo! Fui ao primeiro dia de aula do semestre só por causa desse livro (risos).

“Ao lado e à margem do que sentes por mim” é um romance intimista e bastante pessoal. E embora não dê para saber o que é ficcional ou não na obra, a gente sente um quê autobiográfico ao longo de suas 310 páginas. O nome da protagonista, detalhes de sua vida e o local onde se passa a história não me deixam mentir. No romance, Ana M. Gonçalves conta a história de uma mulher chamada Ana, que larga tudo em São Paulo e se muda para uma pequena ilha na Bahia a fim de se redescobrir enquanto espera por seu grande amor.
Ana Maria Gonçalves

Não gosto de bancar o crítico. Ou pelo menos, não publicamente. Mas eu gostaria muito de dizer algumas palavras sobre o livro. A leitura de “Ao lado e à margem...” foi um tanto singular para a minha pessoa. Eu estava muito curioso para saber como havia se saído em sua primeira empreitada literária a escritora que deu vida a “Um defeito de cor”. É muito interessante, principalmente para quem, assim como eu, se enfiou nessa coisa de escrever, fazer uma leitura mais atenciosa, mais de perto, de um texto. Ainda mais quando quem o escreveu é alguém que a gente admira. Há alguns meses eu li um texto de Ana Maria para o Intercept Brasil chamado “Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo”. E como essa mulher escreve! Além de um ótimo ritmo, ela é muito afiada na escolha das palavras. Em alguns momentos, o texto parece nos cortar que nem navalha. No que tangia a qualidade de sua escrita, eu só conseguia pensar em uma coisa: o que eu preciso fazer para ficar bom desse jeito? Sério, me digam o que tenho que beber ou quem eu preciso sacrificar que eu faço! Logo, quando pus as mãos em seu primeiro livro, foi difícil segurar a expectativa. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que Ana nem sempre foi esse monstro todo? Que ela, em algum momento, também teve traços de gente ordinária que nem eu?
Uns e Outros: contos espelhados
“Ao lado e à margem...” não é um livro ruim. Pelo contrário. Ele guarda em si ótimos momentos. Quando Ana escreve sobre Itaparica, seus costumes e cultura, ela o faz de forma bastante rica. Ficamos com aquela vontade de conhecer mais daquele lugar e do seu povo, sabe? Além disso, há uma personagem muito boa no livro, o Zé. Sempre que ele se faz presente, contado suas histórias ou voando com seus devaneios, a gente quer ouvi-lo sem parar. Sem contar que Ana já escrevia muito bem nessa época. Há trechos lindíssimos, nos quais ela faz de sua prosa poesia. Entretanto, a Ana de “Ao lado e à margem...” não é a mesma Ana de “Negrinha! Negrinha! Negrinha!”, conto assombroso, inspirado em “Negrinha”, de Monteiro Lobato, presente na coletânea “Uns e outros: contos espelhados”. A gente percebe que “Ao lado e à margem...” é um livro que, apesar de todo talento, é de alguém que está começando. Não posso afirmar com certeza, mas caso não tenha tido, talvez o dedo de um editor pudesse ter ajudado na construção da obra. Para tentar ilustrar o que eu quero dizer, vou usar o exemplo de algo recorrente no romance: a questão da protagonista com o amor. Não sei se foi algo pessoal, coisa de gosto e tal, mas boa parte das vezes que esse era o foco do texto, eu dava aquela desanimada. Me soava como aquelas histórias de amor ‘água com açúcar’ e por vezes, até forçava um pouco a barra. Sem contar que era um tanto repetitivo. A coisa era melhor quando ela falava de relacionamentos passados, mas também houve momentos nos quais tive a mesma sensação. Mas reitero: pode ter sido coisa particular. Talvez você que teve paciência de me ler até aqui não concorde caso leia ou já tenha lido o livro. Há essa possibilidade. Afinal, como sempre digo, cada leitor e cada leitura é diferente. E é aí que mora a magia desse negócio todo, não é mesmo?

“Ao lado e à margem do que sentes por mim” é um começo. O começo de Ana. E se ela nunca tivesse o escrito, talvez hoje não tivéssemos “Um defeito de cor” e a Ana Maria Gonçalves que a gente conhece e tanto precisa. Inclusive, isso me faz lembrar de algo que Parul Sehgal escreveu sobre Machado de Assis em um texto para o The New York Times. Ao falar da evolução da escrita de Machado, a autora disse algo que julgo muito bonito: “mas em 1879, seu estilo mudou – ou melhor, ele chegou”. E talvez tenha sido a mesma coisa que aconteceu à Ana. Em 2006 seu estilo chegou, mas antes disso, ela precisou escrever “Ao lado e à margem...” e passar por todo o processo pelo qual passou, e já é de conhecimento de todos, para que “Um defeito de cor” existisse. E assim como lapidamos um texto, tal qual se lapida um diamante, o escritor também tem o poder de lapidar a si mesmo. Se não me engano, foi Zadie Smith que disse em algum lugar que a literatura é a única forma de arte na qual nós realmente podemos nos tornar melhores sem que tivéssemos a necessidade de ter vivido a vida inteira a fazê-la. E embora essa seja uma discussão mais profunda e cheia de nuances do que só essa afirmação, concordo com ela. E se nem Machado era o Machado em seu alvorecer literário, quem sou eu para cobrar de Ana que ela já fosse a Ana em seu primeiro livro? Como alguém que está aprendendo a escrever, tenho em “Ao lado e à margem do que sentes por mim” uma tremenda aula. Aula essa que me mostra que quando se trata de literatura, é só com bastante empenho e paciência que se chega a algum lugar. Ou seja, é escrevendo, reescrevendo e tendo em mente que é tentando e errando que se aprende alguma coisa. E que além disso, é necessário terminar aquilo que começamos para que possamos seguir em frente levando conosco tudo o que aprendemos durante esse processo. Como um amante da literatura, tenho em “Ao lado e à margem do que sentes por mim” o privilégio de saber como foi o nascimento de uma provável cânone desta arte. No final das contas, eu só tenho a agradecer. Obrigado por tudo, Ana.



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