Nós Matamos o Cão Tinhoso- Luís Bernardo Honwana

maio 07, 2018

Este é um livro de contos do autor moçambicano Luís Bernardo Honwana. Publicado pela primeira vez em 1964, com sete contos: “Nós Matamos o Cão Tinhoso”, “Inventário de Imóveis e Jacentes”, “Dina”, “A Velhota”, “Papá, Cobra e Eu”, “As Mãos dos Pretos” e “Nhinguitimo”. Esta edição da editora Kapulana, lançada em 2017 no Brasil, depois de 37 anos desde a primeira publicação, traz um conto inédito: “Rosita, até morrer”. Esta edição também conta com um posfácio de Vima Lia de R. Martin, professora de Letras da USP.  

O conto que dá título ao livro é de uma potência muito grande. Narrado em primeira pessoa por um garoto chamado Ginho, que nos apresenta um cachorro chamado por todos de Cão Tinhoso e estava muito doente, de modo que causava nojo e desconforto nas pessoas, apesar de não ter ânimo nem para correr atrás das galinhas: “As galinhas nem fugiam, porque ele não se metia com elas” (p.11) O cão costumava ficar nas redondezas da escola em que Ginho estudava e inspirava histórias que justificavam seus machucados. “O Cão Tinhoso tinha a pele velha, cheia de pelos brancos, cicatrizes e muitas feridas, e em muitos sítios não tinha pelos nenhuns, nem brancos nem pretos e a pele era preta e cheia de rugas como a pele de um gala-gala” (p.14-15). A única pessoa que gostava do cão, a ponto de querê-lo perto e dividir seu lanche com ele, era uma menina chamada Isaura.

Um dia mandam o veterinário matar o cão e ele passa essa responsabilidade para as mãos de um grupo de garotos de gostam de brincar de tiros. Ginho faz parte desse grupo, porém não gosta nada dessa ideia de matar o Cão Tinhoso, mas não pode fazer muita coisa para impedir, além de que também não queria ser mal visto pelos garotos de sua turma. São 12 garotos contra um cão e a descrição da morte faz pensar no quanto o ser humano pode ser mau e despropositado em suas ações.
 "— Meu filho, tem de haver esperança! Quando um dia acaba e sabemos que amanhã será tudo igualzinho, temos de ir arranjar forças para continuar a sorrir e continuar a dizer 'isso não tem importância'" (Do conto "Papá, Cobra e eu", p.103). 

No conto “As mãos dos pretos”, que também é narrado em primeira pessoa por um garoto que ouve do professor “que as mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo” (p.107) e fica encucado com essa justificava, então resolve sair colhendo opiniões de diferentes pessoas sobre o assunto, até que sua mãe lhe dá a resposta mais linda que poderia ser dada.

Não por acaso estes dois contos referidos acima são os que mais gostei. Eles são dois dos quatro que são narrados por crianças e isso faz com que a narrativa ganhe um tom especial porque as crianças veem o mundo de uma forma inocente e ingênua.
O conto inédito em livro “Rosita, até morrer”, apresenta uma escrita totalmente diferente dos demais porque com muito sentimento vamos lendo a carta que Rosita escreve para seu ex-namorado que a abandonou grávida e o que é mais tocante é que ela não teve oportunidade de estudar muito, então a carta está escrita cheia de “erros” e discordâncias gramaticais, mas apesar disso, passa a mensagem que ela quer transmitir. É muito triste a história dela.

O livro foi publicado em 1964, em um contexto histórico no qual Moçambique passava por uma guerra pela independência de Portugal, daí pode-se surgir algumas possíveis interpretações dos contos que vão para o lado da crítica política e social, como também da distinção de classe e do racismo.
Tudo nesta edição está impecável, desde a capa às notas de rodapé que podem ajudar o leitor brasileiro, pouco familiarizado com o português de Moçambique, a entender algumas palavras e expressões.
Recomendo fortemente a leitura, principalmente para quem gosta de narrativas feitas por crianças e de contos profundamente tocantes.

O livro pode ser adquirido pelo site da Editora Kapulana.

*Exemplar cedido pela Oasys Cultural.

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6 comentários

  1. Hola María! imponente los fragmentos que citaste, hay que celebrar que los africanos están llegando con sus publicaciones a este lado del mundo.
    Besos

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  2. Geeeente nunca tinha ouvido falar desse livro. A capa e o titulo me chamaram muito a atenção! Adorei essa resenha e fiquei com muita vontade de ler, quero muito! Adorei a dica!

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  3. Mais uma leitura pra adicionar na minha lista de desejos! Fui ficando cada vez mais curiosa com as passagens que você mostrou.

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  4. Olha, não sou fã de contos. Mas o que mais me incomodaria seria mesmo o português de Moçambique, não consigo ler livros com português de outro lugar, fico desorientada. Sei que você falou das notas de rodapé, mas não é algo que funcione pra mim, isso de ter que parar pra ler uma explicação atrapalha ainda mais o meu envolvimento com o enredo, que no caso de textos curtos já é bem complicado. Mas anotei a dica, conheço pessoas que provavelmente vão curtir bastante, narrativas feitas por crianças são sempre incríveis.

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  5. Oi Maria, sua linda tudo bem?
    Eu nunca li nenhum livro com o português de Moçambique, não sei se é difícil de entender. Já li um com o português de Portugal e foi super fácil. Acho que gostaria muito por trazer um pouco da sociedade deles que não conheço através dessas críticas. Mesmo não lendo contos, vou colocar na lista. Sua resenha ficou ótima!!!
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com/

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  6. Olá!
    Gostei de saber que o livro tem todo um contexto histórico que o envolve, sem dúvida, fiquei interessada. É a primeira resenha que eu vejo dele e já deixei anotada aqui a sua dica. Espero poder conferir em breve.

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