“Nem toda mulher quer ser princesa” é o subtítulo deste livro, o que já pode provocar um estranhamento por ser antecedido pelo título “Vacas” e leva a concluir que as mulheres não são iguais, enquanto umas querem ser princesas, outras querem ser vacas, mas acho essa dualização um tanto quanto problemática, por mais que apoie nossa liberdade sexual.
O livro vai nos fazer conhecer três mulheres de diferentes idades e a narrativa vai ser intercalada entre as três, variando entre primeira e terceira pessoa. Elas não se conhecem inicialmente, mas no decorrer da narrativa haverá pontos de contato entre a vida delas.

Tara é uma mulher de 42 anos, mãe solteira e trabalha produzindo documentários sobre abusos e assédio sexual para a TV. Em seu trabalho, tem que lidar diariamente com seu chefe e colegas homens que sempre duvidam de sua capacidade e a julgam por mulher e mãe solteira, o que faz com que precise reafirmar constatemente sua capacidade, mesmo sendo tão boa (e às vezes melhor) em seu trabalho, quanto eles.
Stella tem 29 anos e é assistente pessoal de um fotógrafo famoso. É muito competente como profissional, mas passa por problemas na vida pessoal por ter perdido a mãe e a irmã gêmea para o câncer e viver com a possibilidade de desenvolver a mesma doença e não poder gerar filhos.
Cam é uma blogueira muito famosa, de 36 anos, declaradamente feminista, que se posiciona contra padrões impostos pela sociedade em relação às mulheres, como não querer ter filhos ou não querer ser casada e tem que lidar com uma mãe e irmãs que não a compreendem e vivem tentando mudá-la.

Acho que não tem uma personagem principal, uma que se destaque mais que a outra, visto que as três são protagonistas de suas próprias vidas, mas certamente haverá aquela que despertará mais simpatia em quem lê. No meu caso, a que mais gostei foi a Tara, seguida da Cam ( mas com ressalvas), e a Stella não teve nada que me fizesse gostar dela. Explico.

Em um determinado ponto da narrativa, quando Cam está conversando com o pai, e ele faz constatações acerca de como as mulheres brigam entre si, ela diz a seguinte frase “Te amo, pai. (...) Você é meu ícone feminista” (p.117). Isso está errado em tantos níveis! Um homem não pode ser considerado um ícone feminista por um motivo óbvio: é um homem!
Em outro momento, em um texto para seu blog falando sobre as mulheres que são mães e as que não são, ela diz: “Qualquer um que chame uma mãe de ‘idiota desocupada’ é uma vaca sem coração. E ponto final” (p.200). Particularmente, acho problemático usar a palavra "vaca" como xingamento, porque historicamente, é uma palavra que é usada para ofender mulheres e fazer com que sintam vergonha de seu corpo e sexualidade. Por conta disso, o título me incomoda um pouco também. Eu não me identifico com ele, nem com o subtítulo. Não quero ser uma “vaca” e nem uma princesa. Aliás, não quero ser rotulada. Sou feminista, mas acho que isso não é um rótulo, é uma necessidade porque o machismo é real e nos mata diariamente.

Quanto a Stella, ela é extremamente negativista, se coloca para baixo e se diminui em todas as situações possíveis. Ela é louca, de verdade. Arma planos mirabolantes para conseguir alcançar seus objetivos, sem se importar com as pessoas envolvidas nesses planos, ou melhor, usa as pessoas para conseguir o que quer. Chega a ser assustador as coisas que ela faz.
Em alguns momentos, há uma tentativa de fazer suspense, mas não funciona. Isso não faz com que o leitor se sinta instigado a continuar a leitura para descobrir o que foi deixado em suspenso, pelo contrário, a todo momento o leitor pode se incomodar com a revisão que deixou muito a desejar. Erros como falta de letras, falta de palavras que seriam importantes para o entendimento de uma frase, e não foi uma ou duas vezes, foi praticamente o livro todo. Não sei o que aconteceu nesse caso, mas normalmente os livros da Harper Collins costumam apresentar uma boa revisão.

Além da discussão sobre aborto, sobre as mulheres terem o direito de não quererem ser mães ou casarem, sexualidade feminina, um assunto que vai ser muito instigado na narrativa é a questão da exposição sexual na internet, no caso, sem o consentimento da vítima. No livro, uma das personagens, sem perceber, foi filmada se masturbando no vagão de um metrô e essa filmagem foi parar na internet. Depois disso, sua vida virou de cabeça para baixo, perdeu o emprego, começou a receber ameaças de estupro via internet, passou a ser julgada e chamada de louca por pessoas que nem a conheciam. Os números de acesso ao vídeo só aumentavam e ninguém parava para pensar em como ela poderia estar se sentindo ou sendo afetada pelos ataques, ninguém parava para pensar que continuar divulgando o vídeo, mandando para os amigos assistirem, só fazia com que as coisas piorassem.

Esse assunto pode provocar uma reflexão pertinente, porque, infelizmente, é muito comum viralizarem vídeos nos quais mulheres são filmadas em um momento pessoal e a reação das pessoas é julgarem e passarem o vídeo adiante, sem parar para refletirem como isso é danoso para a vítima ou refletirem sobre o porquê do assunto sexo ser motivo de vergonha ou ainda tabu em nossa sociedade.

Tem um acontecimento muito importante para determinar as ações futuras das personagens, mas ele é dado sem nenhuma preparação prévia, não que devesse ter uma preparação porque seria um choque de qualquer forma, mas ele é tão repentino que parece mais uma coisa jogada, sem explicação nenhuma e o leitor fica sem saber como uma pessoa, que naturalmente teria esboçado alguma reação, reagiu a isto. Pode parecer confuso, mas juro que quando lerem o livro vocês vão entender. É difícil explicar porque seria um belo de um spoiler.

Me digam o que acham do título propor um "empoderamento" feminino dessa forma. Quero saber a opinião de vocês.

*Exemplar cedido pela editora.

Um Comentário

  1. Oi, Maria! Eu tava curiosa pra ler esse livro quando o vi na lista de cortesia do Skoob, mas nem imaginava que ele tivesse esses problemas. Concordo demais quando você diz que é perigoso cair nessa categoria de "ou é princesa ou é vaca", até porque eu não me vejo em nenhum desses dois lugares (assim como você também não) e não acho que a vida de uma mulher seja resumida a ser apenas de um jeito ou de outro. Parece que é uma tentativa de desconstruir uma ideia mas já caindo em outro estigma.
    Você citou o trecho “Qualquer um que chame uma mãe de ‘idiota desocupada’ é uma vaca sem coração. E ponto final” (p.200) e, apesar de não ter lido, penso o quanto isso é ruim e sem sentido se a ideia da autora é fazer com que a rivalidade/intolerância entre as mulheres seja colocada em discussão.

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