“Para as crianças que vivem às margens da sociedade e que passam por dilemas colossais. As suas vozes são importantes”. Esta é a dedicatória que nos deparamos ao abrir o livro e só com ela, já se pode ter uma boa noção do que será encontrado na narrativa: algo marcante, que nos fará refletir sobre a situação das crianças, especialmente as mulheres, em uma sociedade extremamente machista.

“Escolhem uma mulher que não os desafie para que possam ter uma vida confortável e previsível. Escolhem alguém para cozinhar, cuidar do lar e satisfazer suas necessidades físicas; alguém que os aceite como provedores e que irá simplesmente lhes retribuir com amor e admiração” (p.58-59).
Em "Sem Gentileza", vamos conhecer Zola e Mvelo, mãe e filha que passam por uma situação de vulnerabilidade social, principalmente depois que a bolsa auxílio-doença que Zola recebia foi suspensa. A mãe, portadora do vírus HIV, passa a depender cada vez mais da filha, que com apenas quatorze anos, precisa assumir responsabilidades de uma adulta e para tal, desiste da escola e de seu sonho de virar cantora. As duas moram em um barraco no meio da favela, em uMkhumbane, na África do Sul, e comem o que conseguem encontrar no lixo.

O livro parte do momento presente para retomar o passado e assim o leitor entender como elas chegaram na situação atual. Desse modo, vamos saber como Zola ficou grávida de Mvelo e de como sua família reagiu à gravidez, como, depois de tanto sofrimento, conheceu Sipho, um advogado de respeito, que, apaixonado, se dispôs a cuidar de mãe e filha e foi um bom marido e pai por seis anos, até que conheceu Nonceba, uma colega de trabalho afro-americana, dona de uma beleza que impressiona a todos, principalmente a Mvelo, que em respeito à mãe, luta contra a admiração que sente pela nova mulher, ainda mais porque ela é a responsável por afastar Sipho de sua vida.
“Uma vida nova tem o poder de fazer mesmo os corações mais frios se esquecerem de tudo” (p.86)
Nonceba foi uma personagem que inicialmente dividiu meus sentimentos porque ela, ainda que não intencionalmente, separou o Sipho da Zola, mas depois ela se tornou minha personagem favorita, ao se mostrar uma mulher determinada, crítica e consciente de sua ancestralidade e da importância da representatividade para as meninas negras.

Estupro é uma realidade social que as meninas têm que enfrentar, tanto que como forma de prevenção, principalmente das doenças sexualmente transmissíveis, são obrigadas a fazerem exames regularmente para provarem que ainda são virgens, dependendo do resultado são julgadas pelas próprias enfermeiras, ou se tornam alvos fáceis dos estupradores.

A narrativa em terceira pessoa é direta, por vezes simples, mas sempre impactante e surpreendente. Não precisa de floreios da linguagem para dizer o que se quer dizer, vai direto ao ponto.  
“Não é assim mesmo, aqueles que mais amamos são os que mais nos machucam?” (p.116).
Gostei muito do final, do modo como as histórias vão se entrelaçando, me faz ter em mente aquela ideia de que o mundo é realmente um lugar muito pequeno, em que as histórias de vidas não estão muito distantes uma da outra, há sempre alguma conexão que as liga, e eu, particularmente, acho isso mágico e impressionante.

Os personagens com uma grande carga psicológica, o retrato da realidade de um lugar no continente africano, mas que pode muito bem ser transposto para o Brasil, mulheres fortes e determinadas, a conectividade entre as histórias, são só alguns dos motivos que fazem essa leitura ser imperativa para quem almeja uma leitura sensibilizadora e crítica.

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