Junho é mês de festa, é mês de namoro, mas também é mês de mais lançamento do livro Lavínia e a Árvore dos Tempos, do carioca Lucinei Campos.
Quem é do Rio de Janeiro vai poder se esbaldar, mas mês quem vem vai ser a vez dos paulistas.

(Clique na imagem para ser direcionado para a página do evento)

06 de junho. 15h00. Maju Parque Shopping Sulacap. Rio de Janeiro.


13 de junho. 10h00-13h00. FLIR- Feira do Livro de Resende. Resende-RJ.



14 de junho. 14h00-15h00/ 16h00. Biblioteca Municipal Gov. Leonel de Moura Brizola. Rio de Janeiro.


https://www.facebook.com/events/823143657772324/?ref=5




20 de junho. 15h00. Livraria Café com Letras. Rio de Janeiro.

https://www.facebook.com/events/1594984644110071/?ref=105


E já adianto uma parte da agenda de julho.

11 de julho. 15h00. Livraria Leitura- Shopping Dom Pedro. Campinas-SP.

https://www.facebook.com/events/1661539664076745/?ref=105


12 de julho. 15h00. Livraria Leitura- Tietê Plaza Shopping. São Paulo.


https://www.facebook.com/events/1729565373937212/?ref=105


O livro é composto por duas histórias que se entrecruzam. A primeira é sobre Gjorg Berisha, que segundo a tradição do Kanun, que é o código que rege as leis daquela região, tinha que vingar a morte de seu irmão, matando a pessoa que o tinha matado. E após isso, ele que seria morto por alguém da família da pessoa que ele matou. Após a morte, a família do matador tinha direito a pedir a bessa, que é uma trégua. Há a bessa pequena, de vinte quatro horas e há a bessa grande, de trinta dias.
Gjorg conseguiu a bessa de trinta dias e a partir de então começou a pensar em sua vida dividida em duas partes: a que ele tinha vivido até o momento com seus vinte e seis anos e os trinta dias de vida que lhe restavam, que começou no dia 17 de março e iria até 17 de abril.

"Com o canto do olho Gjorg mirou o fragmento de paisagem além da janela estreita. Lá fora corria março, meio risonho, meio gelado, com aquela perigosa luminosidade alpina que só esse mês possuía. Mais tarde viria abril, ou melhor, apenas sua primeira metade. Gjorg sentiu um vazio do lado esquerdo do peito. Abril desde já se revestia de uma dor azulada. Assim, abril sempre lhe causara essa impressão, de um mês um tanto incompleto. Abril dos amores, como diziam as canções. O seu abril despedaçado..."
Após matar, a pessoa que matou tinha que pagar o tributo do sangue. Para fazer isso, Gjorg foi para a kullë de Orosh (kullë é o que seria para nós as casas). Andou por um dia inteiro para chegar e ficou surpreso ao saber que poderia ficar até dois dias esperando para pagar.

A outra parte da história é sobre um casal, Bessian Vorps e Diana, que vão passar a lua-de-mel no Rrafsh do Norte, local dominado pelas regras do Kanun. Viajam em uma carruagem com bancos forrados de veludo preto. Bessian é uma escritor e intelectual que sabe muito sobre o kanun e ao longo da viagem vai explicando para Diana tudo que ele julgava importante, como as normas de hospitalidade, o modo de funcionamento e explica principalmente sobre a figura do "amigo", que é um semideus dentro desse contexto do kanun.

Em um determinado momento, quando Gjorg está retornando para casa, o caminho dessas três personagens se cruzam e a partir de então, Diana e Gjorg nunca mais serão os mesmos. Diana com o fascínio de ter conhecido alguém marcado para morrer e Gjorg na busca de uma motivação para seguir seus dias sabendo que a morte se aproxima.

Este livro de Ismail Kadaré foi o meu primeiro contato com a literatura albanesa e me surpreendeu de um jeito positivo. O livro é repleto de notas de rodapé, o que auxilia no entedimento das muitas expressões albanesas que aparecem.

Originalmente, o livro foi escrito em 1978. Foi publicado no Brasil em 2007, pela Companhia das Letras, pelo selo Companhia de Bolso.
Pelo que pude perceber, por aqui o livro não é muito falado e quando o é, é feito em detrimento do filme de 2001, de mesmo nome, que foi baseado no livro, mas é ambientado no sertao nordestino e conta com a direção de Walter Salles e a atuação de Rodrigo Santoro e Wagner Moura, entre outros.



Iniciantes é a versão original dos contos publicados em 1981 no livro Do que estamos falando quando falamos de amor. Naquela época os contos passaram pelas mãos do editor Gordon Lish, que modificou quase todos. O que rendeu ao autor, Raymond Carver, o título de minimalista.
Nesses contos Carver expõe o dia a dia de pessoas comuns. Pessoas que não fizeram nenhum ato heróico, simplesmente vivem. E o Carver é tão certeiro que começamos a pensar que a beleza está mesmo nisso: nas simples tarefas do cotidiano.

O primeiro conto do livro é "Por que não dançam?". Aparentemente, um homem está tentando vender seus móveis e os coloca em exposição no jardim de sua casa, quando casal passa por lá e se interessam por alguns móveis.
"Uma coisinha boa" é o maior conto do livro. E também é um dos mais tristes. Nele, uma garoto é atropelado no dia do seu aniversário. A princípio ele parece bem, mas quando chegou em casa, dormiu no sofá e não mais acordou. Seus pais o levaram para o hospital e ficaram com ele. O médico tentava tranquilizá-los dizendo que o menino poderia acordar a qualquer momento, que não havia motivos para ele estar dormindo e que descartava a possibilidade de estar em coma. Passaram-se dias e o garoto não acordava. Quando começaram a aceitar que o garoto estava em coma, ele dá sinal de vida, mas algo inesperado acontece.
Em muitos contos, as coisas ficaram subentendidas, como no conto "Tanta água tão perto de casa", em que um grupo de amigos saem para pescar e encontram no rio uma garota boiando na água, morta. Quando eles retornam para suas casas e avisam as autoridades, a esposa de um deles dá a entender que seu marido pode ter alguma coisa haver com a morte da garota, mas em momento algum ele confessa, apesar de agir de forma estranha. Então fica subentendido e é o leitor que tem que tomar uma posição escolher em quem acredita.

O conto "É meu" é o mais curto do livro, e é, de certa forma, o mais chocante. Nele, um casal está se separando, o marido está arrumando a mala para ir embora e quando termina diz para a mulher que quer o bebê. Ela diz que não e então os dois começam a disputar quem vai ficar com a criança, que até então estava nos braços da mãe, puxando ela de um lado para o outro. O autor encerra o conto de uma forma muito abrupta, cabendo ao leitor, novamente, tirar suas próprias conclusões do que aconteceu, mas só nos faz pensar no pior.

Foi o meu primeiro contato com os contos do Carver e foi um belo de um primeiro contato, diga-se de passagem. Agora quero ler seus outros contos publicados aqui no Brasil em 2010 pela Companhia das Letras, no livro "68 contos de Raymond Carver". Iniciantes também foi publicado pela companhia das Letras, em 2009.

Escrevi um texto sobre o Raymond Carver no blog Delirium Scribens, do Raphael Dias. Nas palavras de meu amigo Arsenio Meira: "Os leitores terão uma ideia de que se trata de um escritor que sabia ser imprescindível dentro dos limites infinitos do seu mundo pessoal, tornando-se assim universal".



A Educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).        
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.


O livro "A Educação pela pedra"  foi publicado em 1966 e rendeu ao autor o prêmio Jabuti. É composto por 48 poemas, divididos em quatro partes, com doze poemas cada. A divisão é feita por letras: a, b, A, B. Os poemas das letras minúsculas são textos mais curtos e os poemas das letras maiúsculas são textos mais longos. Isso exemplifica a preocupação do poeta em projetar um livro bem arquitetado. Todos os quarenta e oito poemas são escritos em duas estrofes, com cada poema sendo constituído de dezesseis a vinte e quatro versos. Em nenhum dos poemas aparece o pronome "eu", o que deixa claro que Cabral opta pela ausência de subjetividade.

Na primeira estrofe do poema-título, há a descrição da pedra como sendo um objeto que ensina diversas lições: dicção, moral, poética, economia, mas sem deixar suas características próprias de "resistência fria", "carnadura concreta". Na segunda estrofe, a pedra é movida para o Sertão e lá ele perde sua habilidade de ensinar, mas permanece pétrea, dura e fria. Nesse poema podemos ver algumas características que são constantes na escrita de João Cabral de Melo Neto: a secura de expressão aliada a uma linguagem precisa.

João Cabral faz parte da geração de 45 do Modernismo Brasileiro, mas sempre rejeitou o modo modernista de escrever, sendo contra as estrofes sem métrica e versos livres, dentre outras coisas. Seus poemas possuem métricas exatas e marcantes, ausência de fluidez, versos repletos de pontuações e elipses. É preciso ter muita atenção ao ler seus poemas, pois não são de fácil memorização, nem de entendimento imediato. Percebemos que seu relacionamento com a poesia se dá com uma frieza matemática: é preciso um cálculo disciplinado, sem se deixar influenciar por sentimentalismos.

O universo temático dos poemas presentes neste livro se volta para o Nordeste, para a Espanha (país que ele morou por alguns anos, realizando trabalhos diplomáticos), a condição humana e o fazer poético, valendo-se da metalinguagem.

Esta edição que li foi publicada pela Alfaguara em 2008 e é composta por outros três livros do autor: Quaderna, Dois Parlamentos e Serial.



Americanah é um livro importante e pertinente de todos os ângulos que o olhamos. Nele, nós conhecemos dois jovens, Ifemelu e Obinze, vivendo na Nigéria dos anos 90, sob um regime militar que deixa a todos insatisfeitos. Em busca de melhores condições, os estudantes almejam países como Estados Unidos e Inglaterra.

Quando Ifemelu conseguiu ir para os Estados Unidos, tendo que deixar Obinze na Nigéria, enfrentou muitas diversidades: não tinha estabilidade financeira e pela primeira vez em sua vida se vê como uma imigrante vista pelos olhos dos americanos. Não só é uma imigrante, como também é mulher, é negra e se depara com a questão racial e com o racismo em suas diversas formas. Foi um começo difícil, cedeu a depressão e se distanciou de Obinze.
Ifemelu começou a escrever um blog sobre questões raciais referentes aos negros americanos sob a ótica de uma negra não-americana. Seu blog fez sucesso, ela conseguiu se estabelecer financeiramente e depois de treze anos morando nos Estados Unidos, ter se relacionado com alguns homens, decide voltar para a Nigéria e secretamente, voltar para Obinze.

Americanah é um livro que explora a estrutura de classes nos Estados Unidos e Chimamanda não deixou escapar nada com sua perspicácia. Foi coerente e pontual ao expor o racismo e em nenhum momento pareceu algo panfletário ou forçado. Através de Ifemelu a autora trabalha temas importantes, como identidade e aceitação numa sociedade racista, que está o tempo todo ditando como nos vestir, como nos comportar e como cuidarmos dos nossos cabelos.

Por se tratar de um assunto extremamente atual, temos a sensação de que o livro não acaba quando o terminamos de ler. As reflexões permanecem e os questionamentos também. A autora tornou visível o que muitas vezes é invisibilizado pela própia sociedade.

Chimamanda Ngozi Adichie é uma mulher, negra e feminista. De sua autoria temos "Meio Sol Amarelo", "Hibisco Roxo" e "Americanah", todos publicados pela Companhia das Letras, em 2008, 2011 e 2014, respectivamente. Temos também "Sejamos todos feministas", de 2014, fruto de um discurso seu, que é disponibilizado para e-reader pela Companhia das Letras de forma gratuita, apesar de ter também a versão paga.