O dia em que os (imensos) poetas populares foram defendidos pelos (geniais) poetas de gravata


por Arsenio Meira Júnior

“No dia de abandonar
O meu torrão querido,
Ouvi meu próprio gemido
A me pedir pra ficar…
Mas, vendo que de voltar
Havia pouca esperança,
Triste como uma criança
Que está com fome ou com sede
No punho da minha rede
Deixei um nó por lembrança”

(Dedé Monteiro, artista que dignifica a genial tradição lírica dos poetas populares; além de populares, são clássicos. Simples: porque são imprescindíveis)

Certa feita, num  festejado congresso brasileiro de poetas, escritores e críticos literários, com a ilustre presença de Neruda como convidado especial, a nata da literatura brasileira viu-se reunida num dos inúmeros recantos do velho Copacabana Palace.
Estavam presentes Drummond, Murilo Mendes, Manuel Bandeira (o decano dos poetas que, a contragosto, foi o escolhido para intermediar os debates), Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Antonio Houaiss, Mário Quintana, Aurélio Buarque de Holanda, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Augusto Frederico Schmidt, Otto Lara Resende (Nelson Rodrigues estava doente e não pôde ir. João Cabral estava em Paris), Ascenso Ferreira, José Lins do Rego, enfim, muita gente, quase todos os bambas estavam presentes (compareceram também os coadjuvantes).

O clima era ameno, de total descontração, troca de experiências, bate-papo, histórias e etc. Vinicius tratou logo de abastecer o estoque de uísque, pois Neruda já estava meio bicado, Ascenso prometia ficar e, ele próprio Vinicius não via a hora de tomar a primeira dose.
Bandeira olhava pra Vinicius e pra Drummond, numa carinhosa provocação para com o poeta mineiro, que entendia o recado e ensaiva um sorriso como quem dizia : “esse aí (Vinicius) é que sabe viver…”

Pois bem.  Lá pelas tantas, quando o tema voltou-se para a poesia de cordel, um crítico literário do jornal “O Globo’, cujo nome hoje ninguém lembra, começou a desancar de forma irada os repentistas nordestinos. Com ares presunçosos, pensava o imbecil que iria ter o apoio de todos, pois confundiu-se todo ao imaginar que só a poesia dita oficial tinha valor para aqueles homens.

Resultado: borrou-se na calças quando viu que a besteira que havia dito; pegara mal demais.  Porque uma coisa é a crítica, mas a ofensa gratuita é coisa para cafajeste (parece que essa foi de Quintana, que após soltar sua conclusão, placidamente voltou a fumar, ressaltando a todos que seria de bom tom ignorar para sempre aquele indivíduo.)

Manuel Bandeira, Ascenso, Drummond, Vinicius partiram pra ataque. Pouco se importaram se ele era de o “GLOBO” ou não. Drummond, irritado, disse ao crítico e a todos que o mundo andava mesmo cheio de pobres–diabos, e que talvez por isso ele ficava cada dia mais amargo, mais cético e desgostoso com a natureza humana. E bradou em alto e bom tom: “E agora, com a maior honra, apresento-lhes mais um idiota no mundo, o Srº critíco fulano de tal.”  As gargalhadas começaram por aí.

Ascenso queria ir pra porrada, mas Ledo Ivo – cuja altura era praticamente a de um anão, conseguiu segurá-lo. (Ascenso era da Altura de um jogador da NBA, ou seja um gigante).
Vinicius – enérgico – pediu a palavra: dizem que na hora ele fez – de improviso – um irônico soneto de “louvor” à sabedoria do “Srº crítico tititca de galinha” (o beócio ficou sendo chamado de titica de galinha).
Mas a melhor defesa veio de  Manuel Bandeira, não só pelo fato de ser pernambucano do Recife, característica fundamental em sua poesia, pois todos sabemos o quanto ele amou o Recife de sua infância e as pessoas do seu imaginário de menino, mas principalmente pela devoção que ele sempre teve pelos seus pares repentistas.

Bandeira, no alto dos seus 60 e poucos anos – com o seu jeito plácido e ao mesmo tempo incisivo, disse ao idiota mais ou menos o seguinte: “ - Meu filho, aprenda uma coisa, só uma: esses poetas são melhores do que todos os que estão reunidos neste colóquio. E não é por piedade ou qualquer sentimento de conterraneidade que digo-lhe e afirmo-lho isso. Eles são melhores que nós pois – a despeito de uma vida castigada pela miséria, morte e ausência de educação formal , escreveram versos do mais profundo sabor liríco, como esses:

“Passa dia por mês e mês por ano
Passa ano por era, era por fase
Nessa base tão triste eu vejo a base
Do destino passar de plano em plano
Com a mão da saudade o desengano
Passa dando um adeus fazendo um S
Vem a mágoa o prazer desaparece
Quando chega a velhice, foge a graça,
Passa tudo na vida, tudo passa,
Mas nem tudo que passa a gente esquece.”
(Jó Patriota, de São José do Egito)

E prosseguiu Manuel Bandeira, diante da plateia muda e embevecida. O “crítico”, aquela altura procurava um buraco onde enfiar sua pobre cabeça: “ - Eles possuem – quando muito – apenas nível primário de escolaridade. Muitos assistiram a morte lenta dos próprios pais, dos seus entes queridos, condenados à própria sorte, em terras distantes, sem hospital, água ou luz. Não poderias jamais vir aqui e ofender a dignidade destes homens. Muitos deles assistem à morte lenta da região em que vivem. E mesmo assim são os Reis do Improviso. Reis da simplicidade e da beleza, como nesta quadra:

“Até nas flores se vê
A diferença da sorte
Umas enfeitam a vida
Outras enfeitam a morte”.
(Zé Lopes, de Afogados da Ingazeira)



E recitando de pé os versos de Lourival Batista Patriota,  o Louro do Pajeú:

“Do gosto para o desgosto
O quadro é bem diferente,
Ser moço é ser sol nascente,
Ser velho é ser um sol-posto,
Pelas rugas do meu rosto
O que eu fui, hoje não sou,
Ontem estive, hoje não estou,
Que o sol ao nascer fulgura,
Mas ao se por deixa escura
A parte que iluminou.”


Finalizou em grande estilo com os versos do príncipe dos poetas do Agreste, o grande Patativa do Assaré:

“Deste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.”

Bandeira foi ovacionado por todos, o encontro prosseguiu, o “crítico” tomou doril e Vinicius de Moraes escreveu – algum tempo depois – que ao sair do congresso, com a alma lavada, pensava no que iria dizer pro seus amigos Ari Barroso e Antonio Maria  no  velho Amarelinho (o bar então em voga no Rio de Janeiro), mas lembrou-se de ir antes ao centro da cidade, onde precisava resolver algumas coisas cotidianas.

E uma vez no centro do Rio de Janeiro, de repente, ele viu Drummond sozinho, sentado num banco, folheando uns livretos de poesia de cordel, com os olhos cheios de lágrimas.
Tudo isso graças à sensibilidade do grande amigo e mestre de todos eles, que se chamava Manuel Bandeira.

Deixo à imaginação dos leitores a veracidade dos eventos ora narrados. Podem ser fictícios; mesmo assim, tenho a mais absoluta certeza, embora não seja vidente, de que o desenlace seria o mesmo.

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