Por Arsenio Meira

O Romance dos romances contemporâneos  

Um romance poderoso e arrebatador sobre uma escrivaninha roubada, que guarda segredos e se torna uma obsessão para os que a possuíram. Personagens diversos, verborrágicos (no melhor sentido do termo) permeiam os espaços descontínuos da ação , do espaço e do tempo. Não sabemos bem para onde vamos. Krauss, jovem romancista cujo talento despertou a atenção do genial Philip Roth, construiu um labirinto fictício impressionante. O livro pode soar indigesto para alguns e não há qualquer demérito nisso. Afinal, " o leitor é o sujeito mais livre do mundo", como decretou definitivamente o nosso Nelson Rodrigues. 

O romance não se organiza cronologicamente; personagens entram e saem a todo vapor, e consequentemente, a trama, episódios temporais e as cenas mudam a casa capítulo. Obviamente, todo o livro reclama atenção. Esse pede mais. Porém ,retribui mais. No final, tudo se justapõe, os acontecimentos se aproximam e o prêmio de Nicole Krauss, dentre outras virtudes, encontra-se na ausência completa de malabarismos para o desfecho. Não há uma linha sequer para situações inverossímeis. Uma romancista americana solitária passa vinte e cinco anos escrevendo numa escrivaninha que herdou de um jovem poeta desaparecido no porões demoníacos da polícia secreta de Pinochet. Certo dia, uma jovem que se diz filha deste poeta aparece inusitadamente, com o propósito de recuperar a peça. A vida desta escritora transtorna-se por completo. No outro lado do oceano, em Londres, um homem descobre um terrível segredo sobre a mulher com quem vive há quase cinquenta anos. E as páginas começam a fluir e cada capítulo é um labirinto, uma saga de dor, perda e poesia. 

Em dado momento, estamos em Jerusalém, onde um comerciante de antiguidades reconstitui lentamente o escritório do pai, pilhado pelos nazistas em Budapeste, em 1944. Estes mundos tem como âncora a escrivaninha de enormes dimensões, que exerce um grande poder, como se fora o próprio destino, sobre quem a possui ou quem dela se desfaz. Na mente daqueles a quem pertenceu, representa tudo o que desapareceu no caos do mundo - filhos, pais, povos inteiros, civilizações.

"A Memória das Nossas Memórias" é uma história que empareda o leitor entre duas perguntas: O que é que transmitimos aos nossos filhos e como é que eles absorvem os nossos sonhos e perdas? Como podemos responder ao desaparecimento, à destruição e à mudança? As perguntas encontram respostas, com espontaneidade, ainda que a dor e solidão andem fielmente de braços dados, colhidas pela ventania que o livro parecer jorrar nos olhos do leitor. A sensação é de espanto, pois as palavras espancam todo e qualquer significado estéril. É um romance que aborda tudo. Formação, vida, destino, amor, abandono, remorso e solidão. E, se o estilo adotado por Nicole Krauss é um tanto quanto difícil no começo, essa dificuldade se suaviza com o passar das páginas. Foi o que eu senti. 

Se o romance não convoca as bordas e nem superfícies, demite a pretensão de inovar, posto que inova per si, mediante a inauguração de uma lição dada no escuro das imemoriais relações humanas, sempre tão vulneráveis, a ponto de serem desenhadas pelo destino de uma peça (a escrivaninha) onde comumente os escritores manejam sua pena. E por meio dela desafiam o mundo e refletem as pessoas, demarcam a geografia, e nos dão a conhecer intimamente os caminhos e o descaminhos que se arquivam na memória de quem se sabe precário e demasiadamente... humano. 

2 Comentários

  1. Olá colega, estou aqui para te indicar uma TAG.
    Abração!!

    http://criticandonamadruga.blogspot.com.br/2014/08/tag-acho-que-criei-uma-tag.html

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  2. Olá. Obrigada por me indicar. Vou respondê-la sim!

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Obrigada pela visita e pelo comentário :)