Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

2 Comentários

  1. Já li dois romances do Mia Couto. Sabia que a especialidade dele é a poesia, mas nunca vi uma coleção de poemas dele por aí, nem sei se foram publicadas no Brasil. Claro que, como a prosa dele já é uma poesia, imaginava que fosse ser assim tão bom. Gostei mesmo. Você viu num livro a poesia ou na internet?

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  2. Ainda não li nenhum livro dele.
    Este poema eu vi na internet. Pesquisando, descobri que faz parte do livro "Idades Cidades Divindades", que foi publicado em 2007 pela editora Caminho. Também não sei se foi publicado aqui no Brasil, mas eu acho que não.

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